Lenda da "Justiça de Fafe"

O símbolo da "Justiça" tem como base uma famosa lenda, com diversas versões, qual delas a mais próxima da "verdade", se é que as lendas testemunham alguma aproximação à verdade, qual delas a mais mirabolante e fruto da imaginação popular.

A versão mais difundida e propagandeada desde o inicio do século IXX, foi objecto de um longo poema de Inocêncio Carneiro de Sá, o "Barão de Espalha Brasas", que se transcreve já a seguir. Fala de episódio, registado no século XVIII e protagonizado pelo Visconde de Moreira de Rei, político influente no concelho e homem  de bem mas não de levar afrontas para casa.

Deputado às Cortes, terá chegado atrasado a uma sessão daquele órgão monárquico, no que terá sido censurado grosseiramente por um tal "Marquês", também deputado, que chegou ao desplante de lhe chamar "cão tinhoso".

O nosso Visconde fingiu não ouvir o impropério e mostrou-se tranquilo durante a sessão mas, finda aquela, interpelou o Marquês petulante, repreendendo-o pelas palavras descorteses que lhe havia dirigido. Em vez de lhe pedir desculpa, este arremessou-lhe provocadoramente as luvas no rosto.

Na época, os conflitos resolviam-se em duelo, que se tornou inevitável. 
Ao ofendido competia escolher as armas, e quando todos pensavam que iria preferir espadas ou pistolas, como era usual na altura, o Visconde apresenta-se para o recontro munido de dois resistentes varapaus. O marquês, é claro não sabia manejar tal arma, e assim, quando a sessão de bordoada começou, o Visconde, perito na arte do jogo do pau, tradicional nesta região, enfiou-lhe tanta fueirada no rival que, como escreve o poeta, "pôs-lhe o lombo num feixe".

À gargalhada ante o acontecimento, os assistentes não se contiveram e gritaram, em coro: "Viva a Justiça de Fafe".

Esta é a versão mais corrente da origem da expressão "Justiça de Fafe", duas outras versões populares são referenciadas sobre a origem da "Justiça de Fafe".

Uma delas aproxima-se um pouco da anterior e reza que, em tempos idos, foi um Morgado de Fafe a uma reunião importante a Lisboa, à qual compareceram pessoas gradas do meio de lisboeta e nacional. A dada altura, um alfacinha terá tratado mal uma senhora, com o Morgado fafense por perto, este não gostou da cena e desafiou o lisboeta para um duelo. O lisboeta aceitou e indicou ao fafense a escolha das armas, o que este não se fez rogado, tendo escolhido o inevitável pau de marmeleiro. De pau na mão, ambos se dirigiram para um largo próximo, acompanhados das pessoas que estavam na aludida reunião e que curiosas se mostravam pelo que iria suceder.

Pau vai, pau vem  e o certo é que o Morgado de Fafe  não identificado nesta versão deu uma valente surra no fanfarrão de Lisboa, originando a expressão que todos hoje conhecemos.

Uma terceira versão remonta a tempos bem mais recuados. Relata que, no tempo do Conde D. Henrique, havia um cavaleiro chamado D. Fafes Telesluz, que era alferes-mor do Conde. Tinha D. Fafes uma bondosa esposa, muito amiga dos pobres e do povo em geral. A dada altura, o cavaleiro ter-se à apaixonado pela sua aia, uma mulher muito formosa que querendo o amado só para si, envenenou a sua ama, tendo esta falecido. O povo, que adorava a esposa de D. Fafes, apercebendo-se que a causa da sua morte residia no veneno que a aia lhe ministrara, dirigiram-se armados de varapaus para a porta do famoso cavaleiro, exigindo que lhes entregasse a aia, para que pudessem fazer justiça pelas próprias mãos. Não lhe restando outra alternativa, D. Fafes entregou a aia à multidão que a matou à paulada: Aí se terá feito "Justiça de Fafe".

Estas as versões mais conhecidas, que têm como elemento comum o pau ou varapau, uma vara de lódão característica desta região, com que se dirimiam antigamente muitos conflitos e rixas, entre pessoas ou familiares. 

 

====================================

 

Todos os fafenses sabem que a "Justiça de Fafe" é um dos símbolos referenciais maiores, embora controverso, desta cidade. É para muitos o verdadeiro "ex-libris" de Fafe. Como tal, não podia deixar de haver um monumento evocativo dessa tradição que percorre o país de lés a lés, associada ao nome de Fafe e ao que por aqui vai acontecendo, nem sempre pelos melhores motivos, o que desagrada a muitos naturais.

O monumento à Justiça de Fafe foi inaugurado no dia 23 de Agosto de 1981, no espaço traseiro do Palácio da Justiça. A sua implantação mereceu, na altura, o reparo de alguns sectores de opinião local, que advogavam a sua localização num espaço com maior visibilidade.

A Construção do monumento era ideia já antiga, no sentido de mostrar a quem visita a cidade o símbolo mais deste concelho, tantas vezes utilizado em cartazes e outras formas de promoção da terra. A  sua concretização, segundo a imprensa da época, deveu-se à iniciativa do falecido eng.º Mário Valente, na altura técnico da Câmara Municipal e que congregou à sua volta o apoio de dedicados fafenses, constituídos em comissão promotora e que desde o início teve o inteiro apoio da autarquia.

A cerimónia  de inauguração integrou-se na Festa do Imigrante, realizada durante dois dias e contou com a presença do Governador Civil de Braga, Dr. Fernando Alberto, do Presidente da Câmara, Dr. Parcidio Summavielle, vereadores, autarcas das Juntas de Freguesias, muitos emigrantes e a Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Fafe.

As figuras que compõem o monumento são fundidas em bronze e medem 2,20 metros cada, pesando no seu conjunto cerca de duas toneladas.

A sua escultura é obra do escultor portuense Eduardo Tavares, professor de Belas Artes.

O custo total do monumento rondou os 800 contos, tendo a comissão promotora conseguido apoios financeiros por parte da Autarquia, Governo Civil, comércio e industria locais, emigrantes e publico em geral.